Aprender a escrever...

Aprender a escrever só se faz escrevendo. E só aprendemos bem aquilo que para nós tenha poesia.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Projeto - Capítulos 22/23



Capítulo 22 – Para o norte.


–“Sacerdotisas são interessantes” hein? Pense mais alto, e mais forte, quem sabe um dia os pensamentos chegam até ela? – Diz a raposa gigante, com o aprendiz montado em suas costas.
– Maldição, Kitsu, você pode ler mentes?
– Mentes não, já impressões espirituais... Acho que o reino todo já percebeu a sua.
– E isso é bom ou ruim?
– Mantenha o foco.
– Tá, perdão, melhor mesmo manter o foco. Para onde estamos indo?
– Para o norte, e cansei de brincar de correr como uma raposa comum, melhor se segurar. – E ele o faz assustado com a já espantosa “velocidade de raposa comum”, não queria ver o que viria a seguir. E mal conseguiu ver mesmo, a raposa concentra o mana em volta de si, e passa literalmente como um raio de luz direto para o norte, assustando um ou outro desavisado de Midgard.
– O que diabos você fez?
– Apenas achei as meninas. Olhe. – Realmente, lá estavam Yumi, Hitch e outras mais que o aprendiz não conhecia.

Capítulo 23 – Um encontro não tão amigável


– Ah, finalmente o forasteiro... Posso dar-lhe as boas vindas apropriadas? – Diz Hatsumomo, ainda presa na magia de contenção.
– Ora, ora, hora do jantar. –Diz o Lobo de Hatsumomo reaparecendo repentinamente.
– Cale-se filhote, você sabe perfeitamente bem que não tem chances contra o nosso nível. – Responde Kitsu, e Yumi interfere na conversa tentando aliviar as tensões.
– Ora, mostrem respeito, estamos em um local sagrado. Por conta dessas infantilidades ela está ali. – Diz apontando a Lampirerin – Quer perder seu orgulho de raposa se rebaixando àquele nível?
– Falando sobre ela... Quem é ela mesmo? –Pergunta Raitun, observando a pessoa encapuzada a quem a Lorde se referia
– Ah garoto, se fizerem a bondade de me soltar talvez eu diga quem eu sou.
– Irei me arrepender disso. – Diz a Arquiduquesa antes de libertar Hatsumomo. Esta se levanta, vai caminhando lentamente até Raitun, em passos calmos, acompanhados pelos olhares atentos das outras. Ao chegar mais perto do aprendiz esta passa a mão em seu rosto, tira seu capuz e sua máscara. Isso estranhamente o deixa paralisado.
– Sou a Lampirerin Mizumi Hatsumomo, Substituta temporária do Lupuoskirus. – Após a apresentação ela leva os lábios ao pescoço de Raitun, e antes que encontre a pele do aprendiz, acaba por tomar um choque. Assim é que seu plano acabara de falhar miseravelmente. Em meio aquela trocas de olhares ela entra em um campo vazio em meio a uma tempestade, ou melhor dizendo, uma projeção de seu espírito é que o faz. Ela(ao menos na tal projeção) havia entrado no mundo interior de Raitun. Cada um tem em seu interior um mundo privado, para onde corre quando precisa se refugiar ou meditar. E o de Raitun e de certos guerreiros era compartilhado pelos espíritos de suas armas. Guerreiro e arma eram apenas um, e o mundo em que viviam era apenas um. Porém Hatsumomo acabara de invadir este mundo, a privacidade daquele garoto. E a cena novamente se repete: Hatsumomo caminha até Raitun, e tenta mordê-lo. O aprendiz imóvel pergunta a si mesmo apenas o porquê daquela mulher estar ali em seu mundo, tentando fazer algo tão íntimo sem nem mesmo ter lhe conhecido, apesar de que tanto ela quando Lilith pareciam ter algo diferente, como se ele as conhecesse há muito tempo. Para a infelicidade de Hatsumomo, a sua mordida é interrompida por um par de mãos que estrangulam aos poucos seu pescoço.
– Quem diabos sois tu, para achar que tem direito de entrar em nossos domínios e encostar tua boca impura em nosso mestre? – Dizem as gêmeas em uníssono, em um assustador uníssono. Apertaram com tanta força que forçaram Hatsumomo a se desfazer em nuvem de chuva e reaparecer a uma distância que ela mesma julgou segura.
– Então ainda não fizeram o contrato, que grave... O que será que acontece se eu o fizer mesmo?
– Retire-se de nossa presença, existência corrompida.
– Ora, não mesmo. Isso se tornou algo bem mais interessante do que já era antes. – diz a invasora com um sorriso angelical.
– Mestre, liberte-nos. Com sua permissão iremos retirar essa presença impura que desequilibra nosso mundo.
– Pobre garoto. Indefeso, em choque, e sem entender o que está acontecendo. Só tenho uma forma de responder às suas perguntas e às “grandes espadas de fio negro”. – a aura dela repentinamente se torna mais forte, e ela continua: – A chuva cai, e o deus dos céus chora. Quando os espíritos vêm, a deusa do submundo ri. Traga as almas, Ceifadora! – e com estas palavras um mana escuro toma conta da foice da mulher. Esta curva mais a lâmina e aumenta um pouco de tamanho. E assim ela parte para cima das gêmeas, que não conseguem fazer muita coisa além de bloquear ou esquivar com dificuldade os golpes. Finalmente seu apelo é atendido, e os olhos da raposa aprendiz despertam em meio a trovões e a uma aura que fortalece repentinamente.
– Como diabos um mero aprendiz tem tanto poder? É quase equiparável ao meu? Imperdoável! – Pôde-se notar mais um detalhe da Ceifadora nesse momento. Uma corrente ligava a arma à sua dona, e graças a isso e a consciência que ela tinha em ter uma arma extensível ela a lança em Raitun. Novamente para sua infelicidade, raposas apenas aparentam ser frágeis. O aprendiz apara o golpe com uma das katanas, e com a outra parte a corrente.
– Temo lhe dizer isso, Senhorita... Hatsumomo, não é? Raposas realmente odeiam visitantes não autorizados em suas tocas, mas especialmente para você, direi minha frase especial de boas-vindas. – diz se pondo em posição de ataque. – Quatro ventos sopram em minha defesa, todos os raios destroem junto à minha lâmina. Destrua, Cumulus Nimbus! –Ao terminar a frase as gêmeas se misturam ao vento, e se transformam e uma única guerreira com vestes similares as de Raitun, porém cores invertidas. Suas katanas diminuem um pouco de tamanho, e tem uma nítida corrente de raios percorrendo suas lâminas. Falando na lâmina, esta fica branca como a neve em volta do Articus. E a guerreira com um chute afasta consideravelmente a substituta. Após o chute, Cumulus Nimbus junta mana à eletricidade da tempestade na ponta de uma katana, e envia tudo para a sacerdotisa fazendo um movimento de corte que despeja uma descarga de mana e eletricidade na invasora. A invasora se desfaz por completo dessa vez, junto com sua arma.
– Ela morreu em um golpe?
– Não a matamos, – dizem as gêmeas, novamente separadas, porém com as katanas ainda transformadas. – apenas a expulsamos de nossos domínios.
– Irmã, o contrato deve ser feito agora, não podemos arriscar esperar outro acontecimento do tipo.
– Sobre que contrato vocês tanto falam?– diz Raitun, fazendo as katanas voltarem ao normal e acalmando seu mana.
– Iremos explicar, confie em nós. – diz Cumulus. Cada uma segura uma mão do aprendiz com a boca, e colocam um dedo próximo a boca dele, pedindo que ele morda as duas simultaneamente. Após a troca mútua de mordidas e a intensificação da tempestade, elas mordem o pescoço do seu mestre, e guardam suas katanas nas bainhas que ele carrega.
– Terminamos.
– Agora expliquem-se.
– Fizemos um contrato de almas. Com este contrato, lhe juramos obediência e cooperação mútua, como um só guerreiro. Na condição de mestre, você dá as ordens, e não é obrigado mais a cumprir ordens. Não contra sua vontade.
– Por que tanta urgência?
– Não há urgência, mestre, isso foi um tanto atrasado. Deveria ter sido feito antes, para que insetos não lhe mordessem primeiro. Ela poderia forçá-lo a obedecer, e nós por conseqüência também teríamos o mesmo destino. Agora não mais. – Após isso, o “transe” dos dois termina, e Hatsumomo se afasta e some, não antes de fazer uma mesura.
– Perdão pela falta de controle, raposinha. Até a próxima.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Projeto - Capítulo 21



Capitulo 21 – “Assuntos pendentes”


– Das armas? Que nem a Yumi fez? Fazer suas armas aparecerem do nada? Sabe... Certas pessoas iludem os outros fazendo isso acontecer de forma enganosa no meu mundo, lá isso é a “magia”. Mas, aqui realmente é possível?
– Sim, e também fazer o mesmo com os espíritos contidos nelas. – “Que magos fracos existem no mundo dele”– Pensa Lilith
– “Espíritos contidos nelas”?
“– Sim, idiota, achou que éramos sua consciência enciclopédica ou algo do tipo? Achou que éramos algum tipo anormal de alucinação?!” – Gritam as gêmeas katanas indignadas em sua mente.
– Ah, entendo... Espíritos... Não é? – Diz o aprendiz em voz alta.
– Isso seria um tanto demorado se não tivéssemos um fato interessante como carta na manga. – Diz Kitsu.
– Verdade, esta carta. – Diz Lilith, e libera novamente o arco. Junto dele aparece uma alta e desconhecida figura de kimono branco e estranhas asas de falcão nas costas. O mais estranho era que sua aura parecia familiar.
– Mantenha o foco, Mihawk! – Ela e o estranho começam a alvejar o aprendiz com uma rajada de flechas, e este desvia as primeiras puramente por reflexo, as restantes graças a seus olhos e katanas.
– Raitun, apresento-lhe o maldito Mihawk. – Diz uma voz familiar atrás dele, com uma aura também atrás dele.
– Quer ajudar-nos a matá-lo? – Diz outra voz familiar, se apresentando da mesma maneira.
– Ou seu código de honra prefere que nós o façamos ser reduzido a pó sozinhas? – O aprendiz olha para trás, reconhecendo as vozes e estranhando o cheiro de tempestade atrás dele. Eram as gêmeas katanas, que se materializaram com a provocação de Mihawk.  A única diferença visível era em suas roupas, As duas usavam um kimono cujos detalhes eram raios, e uma das mangas era maior e rasgada na ponta, chega a dar impressão de que não havia nada sendo coberto por aquela manga, ou que o que estava ali coberto por aquela manga não queria se mostrar de jeito nenhum. Enquanto na roupa de Cumulus a base era branca, os detalhes eram negros e a manga maior era a direita, em Nimbus as coisas eram invertidas (a base, os detalhes, e o lado da manga). Tirando a aura e a roupa, eram iguais: tinham 1,55m, um rabo de cavalo que prendia um cabelo que lembrava a cor da aura de Raitun, um símbolo incompreensível estampado na testa, e camuflado por uma franja. Olhos e pele relativamente claros. O susto foi inevitável, a dúvida sobre o que ocorria também, mas quase tudo foi rapidamente assimilado. O que faltava era saber por que Mihawk, o arco de Lilith pareceu provocar as duas, e por que elas atenderam tão prontamente se materializando. As duas katanas de lâmina negra agora eram duas mulheres de aspecto magnífico, e de presença magnífica e ao mesmo tempo assustadora. E a lâminas que estavam em posse do aprendiz liberam faíscas se chocando com o arco de Mihawk. As armas agora estavam nas mãos dos espíritos, e não dos donos.
 Enquanto as armas tentam se matar, os seus donos se aproximam para tentar retomar a conversa.
– Explique-se.  – diz Raitun
– Simples, Mihawk provocou as gêmeas fofas, e elas caíram, se materializando e aceitando um suposto duelo.
– E ficamos olhando até a mana delas acabar?
– Não, isso iria demorar muitas eras, afinal, eles têm muitos “assuntos pendentes” para resolver.
– “Assuntos pendentes”...como assim?
– Bem, é que o Mihawk se ligou a elas há muito tempo atrás, e até agora não decidiu se iria casar com uma delas, com as duas ou nenhuma.
– Ah... entendi...Que problemático. O que vamos fazer, já o improvável acerto de contas não virá nem tão cedo?
– Eu chamo o Mihawk de volta, você materializa suas espadas e chama as gêmeas de volta.
– A sacerdotisa-san tem uma mania de dizer algo complicado do mesmo jeito que diz “respire”, não concorda, Kitsu? – O aprendiz suspira irritadiço, pelo fato da raposa novamente ter sumido. Após mais um suspiro, continua. – É uma tradição aqui no reino os seres sumirem quando vão ser chamados/acionados?
– Quem sabe? Apesar de ser uma representante importante, não sigo a risca a maioria dos hábitos daqui. Digamos que assim como você, sou um pouco diferente.
– E por qual motivo?
– Sigo meus próprios sentimentos e princípios, “siga seu coração antes de tudo, para tudo, e sobretudo, sobre tudo”, é uma frase que me acompanha há muito tempo.
– Então, pelo visto teremos um bom relacionamento daqui em diante. A Srta um pouco diferente poderia fazer as honras? Acho que eles já gastaram energia suficiente. – Realmente as armas já estavam ofegantes, e pareciam se apoiar na mais pura teimosia. Lilith estende a mão, e murmura algumas palavras inaudíveis, o que provavelmente foi a causa de Mihawk se transformar em puro mana e retornar ao pingente da sacerdotisa. Após isso ela faz um aceno de cabeça para Raitun, que estende a mão e grita:
– Retornem as suas lâminas! Chega disso! – E Lilly balança a cabeça em sinal de desaprovação, parecia ter visto o que aconteceria a seguir.
katanas – Esta é a maneira de tratar alguém do nosso nível?
– Como ousa tratar as damas da tempestade de maneira tão vulgar? Quem é você para fazer isso?– E as duas investem furiosamente contra o próprio mestre. Este, sem as lâminas, usa sua forma híbrida de raposa e humano e consegue ao menos desviar os golpes.
– Prove-nos que é digno de ser nosso mestre, seu retardado! Prove que não é apenas um humano fraco, que aprendeu alguma coisa em seus treinamentos! Mostre-nos que a sua alma realmente está conectada com a nossa antes que a gente destroce com nossas lâminas e procure um mestre melhor! – Gritavam as gêmeas, enquanto atacavam vigorosamente o aprendiz.
– Alma? Não. MANA. – Foram as palavras do mestre das lâminas negras. Estas parecem não ter escutado, e formam um X cruzando suas lâminas. Das lâminas sai uma lâmina de mesmo formato feita de mana e indo direto em direção ao aprendiz.
– Ora, ora, suas gêmeas INSOLENTES! – e o poder de Raitun cresce dessa vez, em de desviar-se do ataque ele apenas tenta segurá-lo com suas mãos, sendo arrastado por alguns metros até contê-lo. Ao fazer isso, começa a rosnar olhando as gêmeas, e faz as espadas se materializarem a partir das duas lâminas que o atacaram em forma de X.
– Retornem ao seu lugar, gêmeas insolentes, a alma de seu mestre lhe ordena! – Diz ele, com um timbre de voz que espantou Lilly. Ela pareceu ter se lembrado de algo familiar vendo a cena, as gêmeas e os vestígios do ataque retornando lentamente a sua forma “inofensiva” de katana.
– Uma raposa é tão assustadora... Não me lembrava que era tanto assim... – Diz Lilith após um breve suspiro.
– Como disse a grande raposa, “não subestime o inimigo, não pense em subestimar seus aliados, e nunca tenha a ideia de subestimar uma raposa”. – Diz ele, para sua surpresa em dueto com Kitsu, que havia reaparecido. Continua sozinho – Pode ser MORTAL.
O trio cai em risos após a cena, e olhando para Lilith e para a raposa, Raitun diz: – Considerando que você reapareceu, minha missão aqui acabou, correto?
– Sim, precisamos ir até outro lugar. Espero que tenha aprendido o suficiente.
– Até o próximo encontro, raposas! – Diz Lilith após outro suspiro. Acabou dizendo isso ao vento, as raposas já estavam bem à frente. Ela se vira e vai andando de volta ao seu templo. – Assim começa o inferno. Que ele congele, destrua e purifique coisas impuras. Que sejam retirados os empecilhos do seu caminho, aprendiz. Volte aqui são e salvo. – E ela balança a cabeça, como que querendo cortar a linha de pensamento – Hora de voltar à triste, solitária e gélida rotina.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Projeto - Capítulos 19/20



Capítulo 19 – Para o sul.


– Parabéns, a primeira parte foi um sucesso total.
– Como assim, temos mais outras partes? Quantas?
– Não “temos” mais nada. VOCÊ tem. Para o sul soldado, para o sul!
– Kitsu! – Diz Raitun, e o vento traz a raposa de volta.
– Olá, raposa idiota. Diz o general, com a Zanbatou em mãos.
– Ah, poupe-me dessa ladainha. Você é o meio orc e eu sou o idiota? Não é melhor admitir que sente saudades de brincar comigo?
– A melhor defesa é o ataque, Gran! –A pressão espiritual do general torna-se maior, até insuportável para o aprendiz. Outra coisa que se torna maior com isso é a já enorme espada. Raitun achava que ela era estupidamente grande, mas ela conseguiu ficar um pouco maior e bem mais larga após as palavras do meio orc. Além de maior estava rodeada por uma aura azul vinda de seu dono, não da própria espada. Isso é mais que suficiente para assustar o aprendiz, porém, como tudo pode piorar, ele fica sem reação quando Sigfried lança uma lâmina de mana em sua direção e na de Kitsu. Não se sabe se isso foi um alívio ou mais um susto, mas Raitun escuta a voz de sua raposa, que está por um momento apenas nas patas traseiras.
– Kitsuhi!– Após a palavra, as patas da raposa voltam para o chão e ela cospe uma rajada contínua de mana contra o ataque do general, como se um dragão cuspisse fogo. Porém o fogo da raposa parecia ser gelado, era azul claro, e raios apareciam aleatoriamente ao seu redor de tempos em tempos.
Foi um breve instante que deve ter soado como eternidade para o aprendiz, uma apreciação única. Contam as histórias que ao olhar Kitsu, viu que esta parecia dizer “monte”. Ele o fez e a raposa retirou-se para o sul. Faz muito sentido, considerando que raposas se entenderiam olhando nos olhos umas das outras. Sentiu apenas uma onda de vento batendo em suas costas, imaginou que “após os ataques disputarem forças devem ter explodido”, e havia acertado. Lembrando-se depois que tinha ainda o dom da comunicação e seu corpo estava inteiro em meio àquilo, ele diz:
– Não achei que tinha uma raposa tão poderosa como aliado.
– Aquilo? Apenas brincadeira. Não subestime o inimigo, depende da derrota dele pra vencer. Nunca pense em subestimar seus amigos, eles podem surpreender você acima do esperado. Por fim e não menos importante, não pense que sou idiota em subestimar seus amigos e nunca tenha a ideia de subestimar uma raposa. Ali acaba o diálogo. Raitun põe seu capuz e segue para o sul, montado na raposa. Enquanto eles caminham livremente, as memórias voltam para o término da conversa das meninas, afinal há mais coisas interligadas nesse mundo do que a rica imaginação de alguns possa imaginar. Essa vai ser uma ligação cármica para toda a vida [ou talvez por toda a morte].
– Nosso chá foi completamente violado. Melhor irmos embora.
– Verdade Louise. Você também Lilith, você deve receber o novato. –Diz Yumi.
– É o forasteiro? – Se intromete Mary.
– O tal famoso forasteiro... Bem coisa fofa, você vai me soltar ou eu quebro sua magia a força? – Comenta Lilith
– Oh, me desculpe. Havia esquecido esse detalhe. – Ao soltar a sacerdotisa essa começa a rir, e seu pingente volta sozinho para o lugar original no pescoço, enquanto Lilith ajeita seu vestido aqui e ali.
–O que, gostou da aura dele? Fofinha não? – Pergunta Yumi, mais curiosa do que as outras em saber o motivo do riso.
– Muito, amo raposas da neve, principalmente em sua... "casa natural", digamos assim. Amo raposas do ártico próximas ao Articus, e adoro usar esses divertidos trocadilhos. – Diz Lilith, fazendo uma breve mesura enquanto seu corpo se desfaz em vários flocos de neve que são levados pelo vento.

Capítulo 20 – Lilith, a segunda lição


 Raitun indo cada vez mais para o sul, já começa a ver de longe o templo em moldes orientais e coberto de neve, assim como todas aquelas terras em volta. Avista também uma mulher, segurando um gigantesco arco. Exatamente no instante em que pisca os olhos sente duas coisas afiadas raspando seu rosto em cada lado: eram flechas, que fazem cortes superficiais e retiram seu capuz. Eles percebem que é algo relativamente sério, porém continuam avançando, até que parem em uma posição na qual possam se comunicar/atacar. Talvez o aprendiz não tenha notado esse diálogo a seguir por estar hipnotizado pela estonteante imagem de Lilith.
– Há quanto tempo, raposa. Que rude de sua parte sumir repentinamente e me deixar sozinha.
– Perdoe-me Lilly, mas sabemos que foi necessário. – Neste momento o alienado aprendiz tira as suas espadas das bainhas, parecia realmente não ter entendido o que aconteceu e a familiaridade que havia entre os dois. Raitun e Kitsu fitam o “alvo”, preparando-se para um duelo que parece desigual. Ao trocarem de posição com a agilidade mana em ação, o silencio é quebrado apenas pelo som das katanas gêmeas caindo no chão. O arco vai sumindo aos poucos, até virar o inofensivo pingente do pescoço da elfa noturna.
– Duplo tiro, duplo acerto. Adoro e odeio olhos prateados.
– Interessantes são os olhos das raposas, acompanhando meus movimentos com tanto afinco. – Responde Lilith, com um amável sorriso, enquanto o aprendiz, mesmo aparentando estar envergonhado ou desanimado, dirige suas primeiras palavras à sacerdotisa.
– De nada me adiantam, minha Lady. Meu corpo não consegue acompanhar os meus olhos.
– Talvez o motivo seja o conjunto estar trabalhando de forma errada. Talvez, enquanto o corpo queira lutar, os olhos estejam se focando aqui – Diz isso arrumando seu decote – e não aqui – diz fazendo o gesto de disparar uma flecha, enquanto o aprendiz faz o gesto de esquiva. Esquiva até o olhar após entender as entrelinhas. Ao levantar o olhar para a elfa e os dois se encararem por instantes, o gelo é quebrado quando a raposa derruba o aprendiz das suas costas, o que provoca o riso geral.
– Sua missão é ensiná-lo sobre mana, e algumas técnicas básicas... Depois detalhes aprofundados.
– Por que eu devo aprender sobre mana? – Pergunta o aprendiz. Lilith se prontifica a responder.
– Perguntas... Um ótimo jeito de adquirir informações. Que tal começarmos com uma conversa cheia de perguntas?!
– Eu aceito.
– Qual o seu nome? Refiro-me ao nome que a Yumi lhe deu.
– Omni Raitun.
– É um bom nome. Omni parece ter alguma relação com ômega, e provavelmente tem, olhando as vestes dadas por ela. Ômega pode significar o fim, mas muitas vezes é preciso chegar ao fim para recomeçar, sabia? Raitun me lembra raios, que me lembram tempestades, que me lembram força. Então, seu nome talvez seria algo como “a força do fim”? Só saberemos quando chegarmos lá, acho. Você também pode me perguntar coisas caso queira.
– Qual o seu nome?
– Lilith. Dizem que é um nome raro, e forte, e antigo usado para mulheres fortes.
– Você realmente não parece ser forte, porém, sinto que você é.
– Sente. É um bom começo. Confie em tudo o que sente quando não houver em quem confiar.
– Você sabe por que eu vim parar aqui em seu mundo?
– Talvez eu tenha alguma ideia, porém nem isso eu posso contar agora. Cada coisa tem seu tempo. Você aprendeu isso em seu mundo?
– Sim, muitas pessoas mais velhas dizem isso lá.
– O que mais elas dizem por lá?
– Dizem... “aproveite a juventude”. Dizem que nada dura para sempre, e algumas dizem para aproveitar cada momento que tiver. Também dizem muitas coisas problemáticas e tristes, principalmente tristes.
– Apesar de tudo, parece ser um bom mundo, existem seres que dizem coisas boas. Você havia me perguntado o que mesmo... Ah, “por que aprender sobre mana”. Você está em nosso mundo agora. E como você viu, existe um clã sombrio que vai tentar destruir você se achá-lo por aí. Caso você não fique forte para combatê-los, vai acabar morrendo, e se sua pretensão é voltar para seu mundo e encontrar tudo que procura, você precisa estar vivo e ter poder suficiente para isso. Aqueles que lhe atacaram são meras formigas, existem dragões a espreita para devorar-nos. Um mero inseto pode conseguir muita coisa, mas só se trabalhar muito para isso.
– O que aconteceria se o clã sombrio fosse aniquilado?
– Não sei lhe dizer, mas presumo que os seres daqui iriam continuar morrendo, porém de forma natural e não destroçadas por forças do mal.
– Então, você deve ter ficado forte, e se o fez, foi por um bom motivo. Considerando o que você descreveu, se eu tivesse sido “acolhido” por eles, estaria... Como você disse... “destroçado pelas forças do mal”. Então, acho que devo alguma coisa a vocês. Ficar forte e ajudar vocês é uma boa maneira de pagar a dívida?
– Sim, é um bom jeito de se pagar uma dívida.
– Então, vamos começar.
– Vamos. Talvez se terminarmos com antecedência possa dar uma volta por aí. – Diz ela, enquanto se aproxima lentamente do aprendiz. Lilith passa os dedos sobre as feridas que provocou, e instantaneamente elas cicatrizam deixando marcas em suas bochechas. – Agora ficou melhor – Diz ela, e leva um dedo manchado de sangue à boca, enquanto com os dedos da outra mão ela dá um leve piparote com o indicador na testa do aprendiz. Após isso, continua: – Voltemos ao nosso foco, jovem raposa aprendiz.
– Ok Srta.
– Não, me Chame apenas de Lilith, ou Lilly.
– Tudo bem, grande Lady.
– Que garoto problemático, heim, Kitsu! Bem, você já usou algum “poder estranho” neste mundo ou no seu mundo? – Em vez de palavras, o aprendiz mostra a ela seus olhos de raposa e Lilly acena positivamente com a cabeça, continuando a linha de raciocínio. –Você sente alguma sensação diferente ao usá-los, não sente? É essa sensação que você vai aprender a controlar. O poder verdadeiro vem de dentro de você, da sua alma, e também pode vir de fora, das partículas espirituais ou dos espíritos desse mundo. Existem vários poderes vindos de dentro de alguém, porém, esse em específico, nós chamamos de mana. Não sei o que você sente, porém, tente aumentar a densidade dessa sensação, torne-a pesada, densa e pesada a ponto de sentir cada milímetro do chão abaixo de seus pés. Procure a sua forma de fazer isso. – A explicação talvez não tenha terminado. Caso tenha sido o caso, não houve tempo suficiente, pois a sacerdotisa teve que desviar de um ataque de Raitun, que agora rosnava como uma raposa raivosa, e se apoiava nas mãos e pés. E ela pensa: “Mais problemático do que pensei, como esperado. Cresça, aprenda, e proteja o que é importante.
– Raposa idiota. – Comenta Kitsu.
–Mantenha o foco, Mihawk. – A sacerdotisa atira apenas uma flecha, atingindo o aprendiz. Este agoniza por alguns instantes, e após isso volta ao seu estado normal. Ele se levantaria se uma pata da raposa gigante não tivesse vindo ao encontro do seu peito. Em uma breve conversa de olhares entre raposas, Raitun entende que fez do jeito mais errado que conseguiria.
– Raposas são assustadoras... – Diz quando volta a respirar.
– Assustadoras, ágeis, espertas, exuberantes, “fofinhas” e... Mortais, melhor definindo. – Após uma breve pausa, continua: – Bem, agora aprenda o jeito certo. Raposas usam o seu poder de um jeito ágil e esperto, leve e elegante, esse é o jeito para uma raposa se tornar forte. –Kitsu começa a diminuir e juntar o mana nas patas. Raitun aos poucos, além de sentir, começa a poder ver. Era como se suas patas pegassem fogo. Kitsu sobe em uma árvore próxima, como se estivesse andando pelo chão, e para em um galho fino do topo, que curiosamente não se curva diante de seu peso. Talvez ele se curvasse diante da imponência da raposa. Falando na raposa, esta começa a usar a agilidade mana, parando várias vezes sentada em pleno ar, e uma ultima vez andando atrás da sacerdotisa, sem marcar suas pegadas na neve. Após voltar à sua forma original e ganhar um afago de Lilith, continua o raciocínio.
– Entendeu agora? Concentramos nosso poder na agilidade e força dos membros, sem perder o estilo e porte do qual nos orgulhamos.
– Algo mais?
– Sim, você conseguir fazer isso tão bem quanto ele. Apenas se aprender bem a manejar o mana, logicamente. –Diz Lilly, aparecendo sentada em um dos galhos mais altos da árvore. Sorrindo, continua. – Pode começar, seu trabalho é subir andando pelo tronco até onde eu estou. Boa sorte.
– Uh... Melhor eu me deitar. –Diz a raposa, deitando a cabeça sobre as patas cruzadas, e observando o que vai acontecer. O aprendiz não comenta nada, apenas fixa o tronco da árvore com seus olhos de raposa. Ele tenta subir correndo, mas apenas ganha um impulso para se jogar para trás depois de três passos brutos. Mais tentativas, nenhum sucesso. O aprendiz acaba pausando as tentativas por algum tempo para recuperar o fôlego.
– Ora, se não é um aprendiz sem persistência! Estou vendo um aí embaixo?! Não, ainda não... Achei que aprendizes aprendiam várias coisas, e continuavam sempre aprendendo. Achei que eles aprendiam antes de tudo a não desistir de continuar aprendendo, por isso continuavam tentando. Achei também que eles analisavam as coisas que não davam certo para achar e consertar erros. Analisavam coisas e o ambiente... Bem, que pena que me enganei profundamente... Pelo menos estou comodamente sentada, e está batendo um vento fresco aqui em cima, assim posso aproveitar o tempo. – Diz Lilith, pensando seriamente em se deitar. Após escutar tudo o aprendiz resolve observar melhor a sacerdotisa, sabe-se lá o porquê. E observando melhor a sacerdotisa, ele percebe que ela também usava o mana em volta dela para estar na posição que se encontrava. O olhar entediado da raposa estava apenas contemplando o vento afagar a grama enquanto isso, e observando um e outro, o garoto resolve optar pela “inspiração” que Lilith lhe deu com palavras e coisas para serem observadas, sacando Cumulus de sua bainha. De olhos fechados, movimentando lentamente sua katana, ele começa a se concentrar na sensação, porém mantendo o controle e a serenidade que a sacerdotisa demonstra no topo da árvore. Ele abre os olhos e gira a espada, que agora começa a criar uma aura prateada e brilhante em volta de si. Nota que a aura vem de sua mão, e não da espada. O próximo passo foi manter a concentração, e transferir a aura para os pés e todo o corpo. Fazendo isso, a aura se intensifica, e com movimentos rápidos o aprendiz começa a subir deixando um rastro de mana e leves marcas no tronco da árvore. Para sua surpresa, aproximadamente na metade do caminho ele muda o olhar do topo da árvore para a sacerdotisa, talvez por puro reflexo, e perde a concentração, por que um fio de luz feito de mana vem em sua direção para chicoteá-lo. Isso faz o garoto perder sua concentração, e o custo disso é uma queda. Antes de cair o aprendiz ainda consegue marcar até onde chegou com a katana: aproximadamente metade do caminho. Após um suspiro o aprendiz se levanta e recomeça o ritual, dessa vez com as duas katanas. De armas em mãos e mana em volta de si, o aprendiz começa a subir de olhos fechados dessa vez. Dessa vez a raposa maior abre um dos olhos e resolve observar de onde está.  Dessa vez, sem alterações na grama ou na árvore, Dessa vez, com as lâminas das katanas para trás como se ele as arrastasse. Dessa vez, não sobe de maneira corrida como um macaco fugindo de um leão, e sim como uma raposa, a passos lentos e leves, como se estivesse flutuando.
As lâminas tocam tão suavemente a árvore que o único rastro de sua passagem por ali é o brilho da marca feita no meio do tronco. Novamente, a sacerdotisa tenta chicoteá-lo usando o mana de forma pura, porém o aprendiz defende ou rebate usando um método parecido com o da sacerdotisa. Uma das chicotadas quase atinge suas pernas, mas um pequeno salto é suficiente para desviar e ultrapassar a marca no meio da árvore, que se desfaz. É nesse ritmo que o aprendiz de raposa continua, até chegar ao topo, que permanece imóvel mediante sua presença. Sabe-se lá o porquê, mas ele resolve ir além do objetivo, equilibra uma katana em cima da outra [talvez nem ele saiba como] e equilibra-se em cima das katanas, mantendo-se relativamente parado. Após sorrir, ele indaga a sacerdotisa.
– Aqui está bom o suficiente? – E pula de lá com as duas espadas, parando agachado no ar atrás de Lilith com as katanas em volta do pescoço da sacerdotisa – Ou assim é melhor?
– De qualquer uma das maneiras, além de uma enorme falta de respeito, não condizem com sua verdadeira posição. Minha visão mostra que você não será apenas a sombra de uma sacerdotisa, um equilibrista ou bobo da corte.
– Sua visão mostra o futuro?!
– Algo do tipo... Nunca duvide das crenças e do almanaque de uma sacerdotisa.
– A tarefa terminou ou a sacerdotisa-san ainda reserva alguma surpresa para um reles aprendiz?
– Algumas, e o treinamento ainda não acabou. Você aprendeu a usar seu mana, mas use-o para algo de futuro, em vez de ficar apenas atrás de mim!
– Ora, falando desse jeito parece que a sacerdotisa-san não gosta de raposas atrás dela. – Diz Kitsu, com palavras lotadas de sarcasmo.
– Ora, parece que a raposa resolveu sair do estado de tédio e do soninho de beleza somente para me aborrecer! E para melhorar a situação ainda aderiu ao adorável sufixo japonês de tratamento?!
– Acontece, Lilith. Qual a próxima etapa?– Indaga Raitun
– Materialização.
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